<em>BLACK POWER</em>
Os Jogos Olímpicos de 1968, acontecendo naquela época e ano, foram férteis em acontecimentos que vale a pena não deixar enterrados nas funduras da nossa memória. E não deve ser esquecido que o local onde foram realizados, a Cidade do México, que o dar-se tal evento pela primeira vez num país não desenvolvido, mais, um prestigioso país do Terceiro Mundo, foi também muito significativo. Tal facto nunca mais ocorreu. Com efeito, os Jogos de 1988 em Seul mais não terão sido, deste ponto de vista, que um comemorar da entrada - já atestada pelas “autoridades” na matéria - da Coreia do Sul no restrito círculo dos países desenvolvidos, um pouco como em 1964 teria sido representado pela realização dos Jogos Olímpicos de Tóquio para o então florescente Japão, a constituir-se como terceiro elemento da Tríada Desenvolvida & Ocidental… Só quarenta anos depois - ihhh! Já irão passados mesmo quarenta anos? -, em 2008 os Jogos voltarão a ser realizados num país não desenvolvido, na China, mais propriamente na sua mítica capital, em Beijing, ou Pequim, como nós costumamos dizer. Mas isto é toda uma outra história.
Os atletas norte-americanos só apareceram na aldeia olímpica da Cidade do México vários dias depois da maior parte das outras delegações lá estarem. Pouco antes da abertura dos Jogos. Os outros, incluindo nós, fomos enviados para lá umas duas semanas antes com a finalidade de nos adaptarmos à altitude. Os norte-americanos estagiaram para adaptação à altitude no seu próprio País, e chegaram o mais tarde possível, até para - dizia-se - minimizarem possíveis problemas com a alimentação no México. Como se a alimentação na aldeia olímpica não fosse extremamente cuidada!
No dia em que chegou à aldeia olímpica a delegação dos EUA, não podíamos ainda saber o que estava para acontecer mais tarde com eles e, indirectamente, também connosco. Habituados que já estávamos à vida e à população na “nossa aldeia” - em pouco tempo parecia que já vivíamos lá desde sempre -, muitos de nós só demos pela presença do grande e qualificado contingente de atletas norte-americanos, nesse dia em que tinham chegado, quando estávamos como de costume à noite, no enorme salão de convívio existente na aldeia olímpica. Era uma noite como as outras que já vinham a acontecer havia dias. O crónico presente em Jogos Olímpicos desde Londres em 1948, Mário Moniz Pereira, ia para o piano que estava colocado num palco sobrelevado existente no salão de convívio e, seguindo o seu hábito de sempre quando um piano está de perto, brindava toda aquela gente, que por ali ia antes de recolher a penates para repousar, tocando uma série de fados e outra música portuguesa - assim mesmo, só portuguesa. A nós, aos portugueses, longe de casa, deixava-nos a contas com uma emoção desbragada; e aos outros, vindo dos quatro cantos do mundo, deixava-os encantados com aquelas artes de quase todos eles desconhecidas - quando Mário Moniz Pereira parava, ficavam todos a pedir por mais. E tudo isto enquanto o convívio de tantos e tantos se ia desenrolando - em particular, trocavam-se os mais diversos emblemas, pinos, e outras lembranças, como galhardetes ou postais, provenientes das mais diversas origens, assim num intenso andanço de um multilateral megamercadejar. Sobretudo, claro, conversava-se babelicamente.
Pois, nessa noite, o equilíbrio foi alterado com a novel presença dos norte-americanos no salão de convívio. Com efeito, as delegações dos EUA aos Jogos Olímpicos, como é sabido, não só são compostas de muita gente, como o modo ruidoso e comunicativo, aquela sua entoação a falar, penetrou pelo ambiente, a inserir-se no mundo de vozes e no mercado de trocas habituais, agora reforçado por um monte enorme de novos pinos, galhardetes e coisas do género. E, após pouco tempo da sua e nossa - dos habituais - chegada ao salão, mais uma vez deu-se o milagre da harmonia policroma e polítona, agora num novo ponto de equilíbrio, tendo-se a composição daquela massa de jovens reajustado com a introdução dos norte-americanos, e estava, finalmente, completa.
Começaram os Jogos, chegou a hora do atletismo, o Bob Beamon a saltar 8,90m em comprimento, os seus companheiros de delegação a arrebatarem vitórias no sprint masculino e…, surpresa, alguns vinham preparados para, no pódio, brandirem os punhos calçados de negro. E não ficaram por aí: penduraram dos alojamentos propaganda ao black power.
Num ápice foram repatriados. E muitos de nós fomos, em massa, à sua expulsão e despedida.
Os atletas norte-americanos só apareceram na aldeia olímpica da Cidade do México vários dias depois da maior parte das outras delegações lá estarem. Pouco antes da abertura dos Jogos. Os outros, incluindo nós, fomos enviados para lá umas duas semanas antes com a finalidade de nos adaptarmos à altitude. Os norte-americanos estagiaram para adaptação à altitude no seu próprio País, e chegaram o mais tarde possível, até para - dizia-se - minimizarem possíveis problemas com a alimentação no México. Como se a alimentação na aldeia olímpica não fosse extremamente cuidada!
No dia em que chegou à aldeia olímpica a delegação dos EUA, não podíamos ainda saber o que estava para acontecer mais tarde com eles e, indirectamente, também connosco. Habituados que já estávamos à vida e à população na “nossa aldeia” - em pouco tempo parecia que já vivíamos lá desde sempre -, muitos de nós só demos pela presença do grande e qualificado contingente de atletas norte-americanos, nesse dia em que tinham chegado, quando estávamos como de costume à noite, no enorme salão de convívio existente na aldeia olímpica. Era uma noite como as outras que já vinham a acontecer havia dias. O crónico presente em Jogos Olímpicos desde Londres em 1948, Mário Moniz Pereira, ia para o piano que estava colocado num palco sobrelevado existente no salão de convívio e, seguindo o seu hábito de sempre quando um piano está de perto, brindava toda aquela gente, que por ali ia antes de recolher a penates para repousar, tocando uma série de fados e outra música portuguesa - assim mesmo, só portuguesa. A nós, aos portugueses, longe de casa, deixava-nos a contas com uma emoção desbragada; e aos outros, vindo dos quatro cantos do mundo, deixava-os encantados com aquelas artes de quase todos eles desconhecidas - quando Mário Moniz Pereira parava, ficavam todos a pedir por mais. E tudo isto enquanto o convívio de tantos e tantos se ia desenrolando - em particular, trocavam-se os mais diversos emblemas, pinos, e outras lembranças, como galhardetes ou postais, provenientes das mais diversas origens, assim num intenso andanço de um multilateral megamercadejar. Sobretudo, claro, conversava-se babelicamente.
Pois, nessa noite, o equilíbrio foi alterado com a novel presença dos norte-americanos no salão de convívio. Com efeito, as delegações dos EUA aos Jogos Olímpicos, como é sabido, não só são compostas de muita gente, como o modo ruidoso e comunicativo, aquela sua entoação a falar, penetrou pelo ambiente, a inserir-se no mundo de vozes e no mercado de trocas habituais, agora reforçado por um monte enorme de novos pinos, galhardetes e coisas do género. E, após pouco tempo da sua e nossa - dos habituais - chegada ao salão, mais uma vez deu-se o milagre da harmonia policroma e polítona, agora num novo ponto de equilíbrio, tendo-se a composição daquela massa de jovens reajustado com a introdução dos norte-americanos, e estava, finalmente, completa.
Começaram os Jogos, chegou a hora do atletismo, o Bob Beamon a saltar 8,90m em comprimento, os seus companheiros de delegação a arrebatarem vitórias no sprint masculino e…, surpresa, alguns vinham preparados para, no pódio, brandirem os punhos calçados de negro. E não ficaram por aí: penduraram dos alojamentos propaganda ao black power.
Num ápice foram repatriados. E muitos de nós fomos, em massa, à sua expulsão e despedida.